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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DANDO ADEUS A: FIST OF THE NORTH STAR (PS3)






















Hokuto no Ken é uma série japonesa que provavelmente é receitada em consultórios psiquiátricos àqueles pacientes que chegam com dúvidas sobre sua própria masculinidade. Datado da década de 80, a série de anime conta a história de Kenshiro, um japonês de 1,90m de altura e com ombros maiores que a cabeça de um ser humano adulto saudável. Kenshiro tem a mania de rasgar sua própria camisa (pra exibir um peitoral anatomicamente impossível) toda vez que alguma pessoa indefesa está sendo molestada por um meliante e, apesar de falar pouco e não ter muitos amigos, ele possui um senso de justiça inabalável e não suporta assistir ao sofrimento de inocentes.

Ah, também tem o pequeno detalhe de que, nessa história, o mundo foi destruído por bombas nucleares, os mares secaram e toda a vida do planeta parece ter sumido do mapa (exceto pela espécie humana), mas te aconselho a não levar a lógica muito em consideração quando for acompanhar essa série, pro bem da sua própria sanidade mental...

Se você acha que obras como Dragon Ball Z ou Cavaleiros do Zodíaco são exageradas e trazem absurdos aos quilos em seus episódios, só pode significar que você não conhece o Punho da Estrela do Norte, uma das séries mais influentes da cultura pop japonesa. Só pra te dar uma ideia: além dos animes citados acima, Hokuto no Ken serviu de inspiração pra milhares de outras fontes das quais provavelmente você não fazia a menor ideia, como Street Fighter ou... cara, Hokuto no Ken é aquele tipo de obra que parece permear cada ramo do entretenimento atual de uma forma quase onipresente, então apenas assista e saia contando as referências que conseguir localizar nos episódios pra me poupar desse trabalho.

Kenshiro cunhou o termo "poser" quando ninguém fazia ideia do que isso queria dizer.

Sim, eu sei que a série se inspira fortemente na franquia Mad Max, e que faz referência visual a várias figuras famosas da cultura popular mundial (acho que a banda Twisted Sister deve ter se sentido ou homenageada ou plagiada com a aparência dos punks e inimigos enfrentados por Kenshiro durante o anime...). Mas Hokuto no Ken possui toneladas e mais toneladas de bizarrices tipicamente japonesas que nunca veríamos em outro lugar senão o Japão. Por exemplo, o protagonista Kenshiro.

Kenshiro é um praticamente da arte milenar Hokuto Shinken. E falar das coisas que o protagonista faz no anime, apenas utilizando essa “técnica”, é como tentar descrever um canivete suíço pra uma pessoa que não enxerga, não ouve e não possui tato. Então, só pra dar um gostinho dos milagres que o Hokuto Shinken opera, basta dizer que Kenshiro consegue, entre outras coisas: explodir cabeças; quebrar colunas ao meio; imobilizar o inimigo; parar seu coração; curar cegueira; entortar barras de ferro; parar armas brancas com as mãos; e muitas outras loucuras das quais não me recordo agora.

Kenshiro e sua técnica do Honkuto Shinken são praticamente invencíveis. Eu assisti a apenas 14 dos mais de 100 episódios que a primeira fase do anime possui, mas não é exagero dizer que o protagonista enfrenta dúzias de oponentes sem sequer ser levemente desafiado nesse meio tempo. Falando assim parece ser algo meio tosco, mas uma das graças do desenho é assistir as formas de execução que com as quais Kenshiro vai dar cabo do seu inimigo, antes de proferir uma das mais célebres frases da história dos desenhos japoneses: Omae wa mou shindeiru (você já está morto).

Apenas cem cadáveres: um dia de movimento fraco na empresa Kenshiro Corporation...

Lembra do golpe dos Cinco Pontos, do Pai Mei (Kill Bill)? Lembra daqueles momentos nos Cavaleiros do Zodíaco, onde os personagens têm seus corpos perfurados por dedos ou um lutador abandona a batalha porque seu oponente já foi derrotado e nem se deu conta disso? Então, todas essas tosqueiras da narrativa japonesa já podiam ser encontradas desde 1983, em Hokuto no Ken.

Então, dada a fama e influência deste... peculiar anime, nada mais óbvio que a franquia ganhar várias versões para videogames de todas as eras possíveis e imagináveis. Claro que eu não vou listar aqui cada aparição dos trapézios plus size de Kenshiro nos games, então só posso adiantar que o texto abordará a minha experiência com o único game da franquia o qual eu tive o (des) prazer de experimentar, o Fist of North Star: Ken’s Rage.
Sem mais enrolação, vamos aos motivos que me fizeram desistir de jogar o Punho da Estrela do Norte, lançado em 2010 para Playstation 3 e Xbox 360, ainda nos primeiros 20 minutos de gameplay.


A GUERRA NUNCA MUDA...




















Em 2009, ao menos no Playstation 3, eu já jogava games com visuais maravilhosos de pelo menos um ano de idade. Entre esses, posso citar Resident Evil 5, Dead Space, Bioshock e Street Fighter 4. Então, o que devemos esperar de um jogo de 2010 com mecânicas simples de gameplay e cenários em linha reta lotados de paredes invisíveis? Nada mais que um deslumbre visual, concorda? Isso é tudo que este jogo NÃO vai entregar...

O tutorial e o modo história são praticamente a mesma coisa: Kenshiro andando lentamente (e batendo lentamente também) por corredores lineares enquanto enfrenta hordas de meliantes genéricos que passam o tempo brincando de upa-upa cavalinho com camponeses indefesos. Se a repetição dos combates fosse regada a lutas divertidas, bem-ilustradas e à altura do gore do desenho, eu ficava calado. Mas não é o que acontece.

Quando não estiver assistindo, pela décima vez, o desabar de uma coluna de pedras que barrava o caminho de Ken, o jogador provavelmente vai estar desviando de uma parede invisível ou tentando ajustar a câmera pra enquadrar o ângulo certo. Os cenários, além de lineares, são feios e repetitivos: boa sorte ao tentar discernir montanhas de escombros de uma carcaça de caminhão destruído.

Kenshiro é tão lento que leva horas pra derrotar o chefe do tutorial.

Ken, por sua vez, conta com "lindas" estrias em baixa resolução que não condizem com a anatomia de um cara que possui mais músculos no corpo do que a biologia permite, visual pobre esse que torna os combates de beat’em up pouco interessantes e desmotivantes de se assistir (e se executar). Os oponentes, ao serem mortos, flutuam no ar com uma ridícula cabeça de balão que deveria representar aqueles momentos legais no anime, onde crânios explodem sem a menores preocupações com faixa etária.

Ainda na parte dos visuais, em apenas 20 minutos de jogo (foi o máximo que a minha fisiologia de adulto de 35 anos conseguiu suportar) eu consegui encontrar um erro de tradução grotesco, digno de quem não faz ideia do material fonte com o qual está trabalhando: Bart, o garoto mau caráter e pentelho que só pensa no próprio bem-estar, virou Bat, o menino-morcego. Se por cegueira ou tentativa de adaptação eu não sei, mas esse tipo de amadorismo faz com que um produto de baixa qualidade caia ainda mais no meu conceito quando eu me deparo com um game desconhecido.

Você não faz ideia da demora que leva pra Ken agarrar um oponente nesse jogo.
E os efeitos de resolução 4K são de fazer chorar...

A parte sonora do game é praticamente uma “Ivete Sangalo no Rock in Rio”: alguns diálogos são extremamente baixos, antecipados por um grito súbito que vai diminuindo de volume conforme a linha de conversação progride. É possível escolher o áudio original japonês com legendas em inglês, o que eu sinceramente duvido que vá melhorar em alguma coisa sua (má) experiência com o jogo. Em outros trechos, parece que estamos jogando um game sobre cinema mudo. As razões para tal comentário são autoexplicativas...

Quando não está te enervando com diálogos quase inaudíveis, Hokuto No Ken está enchendo seu saco com um rock genérico, durante os combates, capaz de deixar entediado até o aborrescente mais fã de Slipknot. Pra piorar, o ritmo lento das batalhas simplesmente não condiz com as faixas tocadas, sendo que na pausa e em outros momentos o jogo toca temas, como nos jogos da série Fallout, que quebram totalmente a identidade musical planejada para o jogo.


SEU CÉREBRO JÁ ESTÁ MORTO E VOCÊ NEM PERCEBEU...
























É incrível como um jogo consegue reunir tantos problemas e baixa qualidade logo em seus primeiros 20 minutos. Falando do ponto de vista de colecionador, Hokuto no Ken é o típico jogo que você adquire apenas pelo seu valor como raridade, destoando de surpresas mais que bem-vindas (como Afrika ou Majin and the Forsaken Kingdom) que te despertam a alegria de desenterrar joias raras do console para o qual você decidiu colecionar.

É um jogo extremamente repetitivo, linear e com combates sem graça, que não fazem jus à fodice do protagonista do anime e ainda consegue fazer o jogador desistir de achar que é possível adaptar uma obra com fidelidade de forma que ele não queira se suicidar de tédio logo depois que a introdução do jogo terminar.

Fist of the North Star: Ken’s Rage possui uma continuação, que eu ainda não adquiri pra minha coleção. Se seguir a mesma linha do primeiro, já sei o que fazer: testar o disco por dez minutos, pra ver se o vendedor não me passou gato-por-lebre; higienizar a caixa e o manual do game e engavetar o título apenas pra engordar as fileiras da minha coleção. Pelo visto, a franquia Hokuto no Ken segue a mesma linha de séries como Gundam ou Dinasty Warriors: são jogos extremamente repetitivos, que exigem do jogador que ele desligue seu cérebro e coloque o dedo polegar no piloto automático, apertando o botão de ação até que todos os inimigos caiam. No desenho, que não requer interatividade, isso pode ser divertido, acredite. Já em um jogo...


Au Revoir.

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