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domingo, 23 de dezembro de 2012

RAIVA!



Rage é o projeto mais ambicioso da Id Software desde Quake.

A Id Software foi responsável pelo sucesso de jogos como Wolfstein 3D, Doom (palco de várias polêmicas e discussões dispensáveis a respeito da influência de jogos violentos em crianças e adolescentes) e Quake (tido como o primeiro jogo verdadeiramente em três dimensões).
A Id também é famosa pelos seus feitos na área de criação de software e motores gráficos que levavam os PCs ao seu limite de desempenho.

Depois de alguns anos fora dos holofotes, a Id Software ataca com seu mais novo jogo: Rage, um game de FPS feito pela mãe dos jogos de tiro.
O que esperar da empresa que “criou” o gênero e que era famosa por maravilhas tecnológicas testadoras de máquina como Doom 3? O máximo, no mínimo...


CARTÃO DE VISITAS DE UMA GIGANTE DOS JOGOS

Filma eu, Galvão!!!











Sinceramente, eu tenho mais o que fazer da minha vida do que ficar pesquisando dados como data de divulgação de primeiras imagens ou os primeiros rumores sobre a cor dos cabelos da Lightnig no Final Fantasy XVY-ISO9002/Advanced. É por isso que eu vou pular logo para um detalhe que será crucial para o entendimento deste review com primeiras impressões sobre Rage (a Id e sua predileção por nomes curtos): O VÍDEO DE “GAMEPLAY” DE RAGE DA E3 2010. O motivo das aspas logo ficará claro, no tópico gráficos.
Abaixo, o vídeo em questão:

Nota: infelizmente, não consegui encontrar o vídeo original do gameplay de Rage. Não sei se foi retirado do Youtube, só sei que não achei. Mas o vídeo abaixo é bem similar ao que me refiro.



Agora o vídeo real do início jogo rodando em tempo real:



Agora, veja este vídeo no qual um dos (cínicos) desenvolvedores afirma que o jogo está em "fase de polimento" por parte dos programadores. Sem legendas em português, infelizmente:




GRÁFICOS

Nuvens brincando de "estátua"!












A regra é a mesma dos outros reviews: o aspecto que gosto de analisar primeiro em um jogo são os seus gráficos. Não por eu ser um sujeito extremamente superficial ou materialista. É que esse será o primeiro contato de um jogador com um jogo, a menos que você seja o Johnny Cage do Mortal Kombat.

Pra começar, preciso adiantar que a falha mais grave de Rage são, justamente, seus gráficos. Para entender o que quero dizer, faz-se necessário assistir ao vídeo da E3 2010 da janela acima. Assistiu? E qual a conclusão que podemos tirar desse vídeo? Simples: ELE É FALSO, FAKE ou qualquer coisa que o valha. Perceba os artifícios usados pelo jogador do vídeo para disfarçar as falhas gráficas, como pegar itens de longe ou não se aproximar muito de objetos e, ainda, caminhar sempre pelo meio dos cenários.

De fato, Rage foi um dos primeiros jogos em que eu ouvi rumores de que as empresas estariam lançando trailers com cutscenes fingindo se tratar de gameplay em tempo real. Não que isso seja uma grande novidade, claro. Mas para mim, esse foi um dos jogos em que isso ficou mais evidenciado.

Não é exagero dizer que o jogo se constrói (ou tenta) diante dos seus olhos, e isso não é uma metáfora para um competente motor gráfico em tempo real.
A primeira impressão que Rage nos passa é a de total espanto e estupefação: como uma empresa do nível da Id teve a coragem de deixar passar uma falha dessas no principal e mais aguardado produto de seu trabalho? Não estamos falando de mais um Call of Duty, ou do Assassin’s Creed da próxima estação. Estamos falando de uma nova série dos criadores de Doom. E isso já deveria ser suficiente para que a empresa tivesse noção do peso que a expectativa em torno de sua criação teria na mídia de games.

E aí? Tudo beleza? Acho que não...











Os aspectos técnicos do jogo são um sério fator a ser levado em consideração para quem pensa em levar uma cópia de Rage para casa.
Esse jogo conseguiu bater todos os recordes de demora na instalação e tamanho do arquivo em questão. E, depois de esperar quase vinte minutos pela instalação de um arquivo de aproximadamente 8GB de espaço em disco, fico me perguntando até onde vai a tolerância dos jogadores de videogame em abraçar e apoiar o produto de suas expectativas exageradas.
O pior é a cara de pau dos desenvolvedores em lançar uma mercadoria defeituosa, visto que uma vez que você já adquiriu o game, só lhe resta jogar para fazer valer o investimento.
E falando em investimento, qual seria a atitude ou suporte da Id perante as reclamações dos consumidores com relação aos problemas de seu produto? Bem, acredito que seja nenhuma, visto que a empresa está mais preocupada em continuar lançando DLCs para complementar algo que ganhou as prateleiras de forma inacabada do que trabalhar em um urgente e completamente justificado patch de correção de texturas.

Sim, meu amigo e sofredor gamer, parece piada mas é a mais pura verdade: a Anarchy Edition de Rage vem com um opulento DLC intitulado The Sewers Missions que pesa, aproximadamente, 300 e poucos MB no disputado HD do seu PS3/360, mas sem nenhuma tentativa de correção dos problemas citado acima. Pra quê que servem os malditos updates e atualizações de sistema mesmo? Um doce para quem respondeu “estorvar o jogador” que só quer... jogar!

Se não pagar pelo conserto eu solto um yoga fire em você, viu?











Como se não bastasse a avalanche de mentiras e trailers fake, os gráficos de Rage não são melhores que os de outros representantes do gênero, mesmo sem o problema das texturas que pipocam na cara do jogador. E como eu posso afirmar isso com tanta autoridade? Respondo com outra pergunta: e se eu disser que a demo deste mesmo jogo não apresenta o problema das texturas citado acima?
Ultrajado? Revoltado? Ludibriado? Bem-vindo ao fantástico mundinho da indústria de jogos eletrônicos. Se acomode na poltrona, torre R$1000,00 em uma caríssima TV de LCD e mais R$800,00 para experimentar um versão beta de um jogo se construindo em frente aos seus olhos.

Se tudo que você conhecia sobre Rage vem daquele trailer da E3 2010, tenho o desprazer de te informar que você foi redondamente enganado pela Id Software.
Na parte dos gráficos, pelo menos, Rage não faz nem o cabeçalho da lição de casa: uma das poucas coisas competentes no visual do game, o céu, seria lindo se não fosse totalmente desprovido de vida e de movimentação. Pelo jeito, o terrível meteoro que atingiu o planeta Terra deu um jeito de cessar o movimento de rotação do planeta também.
Sim, Oblivion, a taça de “céu mais bonito” ainda continua descansando merecidamente em seu colo.

Claro, nem tudo são falhas e defeitos quando se fala nos gráficos de Rage: o visual das armas é muito bom (rola até uma espécie de “paquera” entre o protagonista e uma nova arma adquirida); a variedade no visual dos NPCs é bastante satisfatória, tirando aquela impressão de jogos como Fallout 3 de que estamos conversando com um dos irmãos quadrigêmeos de uma família de mercadores; os efeitos de explosão são muito bonitos e convincentes; o nível de detalhamento dos já citados NPCs é alto, passando uma boa impressão de que estamos lidando com seres humanos, e não com marionetes horrendas prestes a ganhar vida e te matar.


GAMEPLAY E ASPECTOS GERAIS

Dado de vinte pode?











O primeiro defeito grave de Rage foi esse, o das texturas. Se você tiver o fôlego necessário para prender a respiração e ignorar os (ultrajantes) visuais mal-acabados do game estará pronto para o próximo passo.
Como é a diversão em um jogo de tiro feito pela criadora de Doom, um dos jogos de tiro mais divertidos já feitos? Simples e direto: é alta.

Mais uma pergunta: o que costumamos fazer em um game de tiro em primeira pessoa? Andar, chegar a lugares e atirar em monstros, certo? E sou muito feliz quando afirmo que Rage executa tudo isso com muita competência e precisão.
Mas, antes de tecer elogios ao que merece ser elogiado no game, gostaria de falar sobre a I.A do jogo.

O mestre dos combates ensinou a sempre mirar na cabeça











Eu não sei quais foram as promessas pré-lançamento deste game com relação à I.A dos inimigos, mas o fato é que o comportamento dos mutantes e monstros de Rage é o pior possível.
Os mutantes, pequenas criaturas esbranquiçadas que correm de quatro patas simplesmente se jogam em cima de você sem nenhum tipo de estratégia ou planejamento. Até aí eu não esperava mais de criaturas dementes de mente e corpo corrompidos. Mas quando se trata de humanos... ah, meu amigo... tente não cair na risada com o vídeo abaixo. Peekaboooooooo!!!!



Até onde joguei, os oponentes humanos do jogo (fácil distingui-los dos mutantes, pois geralmente carregam alguma arma de fogo) não são inimigos. Eles me parecem mais com atores seguindo um rígido e risível script imposto pela piada que é a I.A desenvolvida para Rage.
Os inimigos humanos de Rage são tão artificiais que chegam ao absurdo de retornar à mesma posição de onde acabaram de levar um headshot da arma do jogador. Nos combates não tem muito o que fazer: posicione a mira na cabeça do retardado que, provavelmente, estará buscando cobertura bem ao lado de um barril vermelho de combustível; atire e espere ele colocar a cabecinha novamente na mira de seu rifle sniper para dar cabo da existência ignóbil do infeliz. É uma tática infalível, pode acreditar...

Com eu disse que teceria elogios, farei: os combates de Rage, apesar da I.A dos inimigos, são muito desafiadores.
O jogo leva adiante a tradição dos níveis de dificuldade de Doom, com os já conhecidos “Hurt me plenty” e “Nightmare”. eu, como de costume, estou jogando no último nível em uma tentativa de burlar a dificuldade decrescente dos jogos atuais. Uma maldita tendência de imbecilizar e facilitar tudo para uma geração que não sabe o que significa enfrentar Ryu no nível 8 no Super Street Fighter II Turbo.
Para resumir: dependendo da sua perícia em jogos de tiro, você não terá grandes acessos de ira jogando Rage (perdão do trocadalho). Mas fique sabendo que a dificuldade do jogo, apesar de ter uma curva muito sutil e balanceada, é sempre na direção vertical e no sentido de baixo para cima, se é que deu pra entender.

Gostaria de abrir um parêntese sobre os loads do jogo e dar um conselho aos jogadores: PLANEJE AO MÁXIMO SUAS IDAS E VINDAS NO GAME, seja em missões ou evitando mortes desnecessáes ou evitando mortes desnecess, seja em misso aos jogadores: PLANEJE AO Ml e balanceada,  cabo da existoCmpletamente justificarias. “Por quê”, pergunta a Marília Gabriela? Pelo simples fato de que, apesar de instalar quase 8GB de dados em disco, Rage te soterrará com uma avalanche de loadings totalmente desnecessária e mal planejada.

Eu não disse que voava peça de Lego?











Vejamos as missões de corrida, por exemplo: há um load para entrar na corrida (antecipado por uma tela preta de “Saving, please don’t turn off the game”) e mais um load para sair e retornar à cidade. O problema é que, em algumas missões (como a Mutant Menace, que exige muita perícia com o rifle sniper por parte do jogador) você será transportado à entrada da cidade, ao invés de retornar do ponto de onde parou (?!?). Por quê? Provavelmente pela lógica deturpada dos programadores de concluir que, se você veio de uma missão de carro, significa que precisa ter passado pela entrada da cidade para voltar. E tome mais e mais telas de load no saquinho do coitado que segura o controle em mãos.

Outro aspecto falho do jogo é a ausência de um mapa dentro das cidades (acho que foi proposital, para criar uma conexão entre o jogador e os cenários) e o tamanho das legendas.
As legendas de Rage SÃO AS MESMAS DO DOOM 3 EM HD. Sem tirar nem pôr. Simplesmente reaproveitaram as do jogo mais antigo sem corrigir o tamanho da fonte.
Tente ler alguma coisa na cidade de Wellsprings, por exemplo, quando as legendas dos anúncios de rádio do prefeito da cidade se interpõem com as legendas do diálogo do npc que está na sua frente...


HISTÓRIA E ATMOSFERA

"And I don't wanna miss a thing..."











Sobre a história, todos sabem que não vou falar muito. Apenas o necessário para embasar o meu ponto de vista sobre a atmosfera e similaridades com um outro jogo da produtora de Rage.

Rage se passa no ano de dois e lá vai o trem (clichê de mundo futurista: confere).
Diante da ameaça de um enorme meteoro que vai colidir com a terra, uma equipe é enviada no melhor estilo “I don’t wanna close my eyes” para interceptar o corpo celeste (clichê de grande catástrofe: confere). Algo dá muito errado (clichê de “algo dando muito errado”: confere) e a equipe não consegue completar a missão.
O meteoro se choca com a Terra e, por razões que eu ainda desconheço, causa a mutação e alteração de quase todas as espécies de vida do planeta (clichê de mutantes em mundo pós apocalíptico: confere).
A sua missão é tentar sobreviver nessa atmosfera a la Mad Max.

Por que eu resolvi falar um pouco mais sobre a história de Rage? É porque ela serve de pano de fundo para deixar claro as óbvias influências de um outro jogo da produtora do Rage.
Caso você ainda não tenha percebido, Rage é produzido pela Bethesda Softworks, atual detentora dos direitos da série Fallout, game que tem como cenário o Wasteland, uma terra pós apocalíptica devastada por um grande conflito nuclear envolvendo a China e os EUA. Deu pra perceber as semelhanças? A admissão das influências de Fallout em Rage é tanta que a empresa faz uma piada com os games da Bethesda ao colocar um Vault Boy na mesa do escritório de um dos personagens principais do enredo.


A GUERRA NUNCA MUDA

Pronto para caçar "mutantes"...











As influências de Fallout não param por aí: a própria palavra usada para descrever o mundo do game é, simplesmente, a mesma: Wasteland.
Alguns elementos são de fácil reconhecimento, como o Authority, uma organização militar (eu acho , pois ainda não topei com nenhum deles) que impõe muito medo e toca o terror entre os cidadãos de Wasteland (alguém aí lembrou do Enclave?), inclusive vigiando os civis com seus bots espiões espalhados pelas estradas no mundo aberto.

O sistema de Rage também se baseia em quests dada por NPCs. É possível criar itens e os ambientes lembram muito as ruínas radioativas de Fallout.
Felizmente tudo funciona muito bem no universo do game, com objetivos bem marcados no mapa; um inventário intuitivo e prático de usar; armas impactantes e boas de se usar e etc..

Há muita coisa com o que se ocupar nas cidades de Rage, incluindo: as quests propriamente ditas; um minigame de cartas; um minigame (viciante e hipnotizante) ao estilo holodec de Star Trek; corridas de automóveis; missões de entrega de itens e pasmem: um minigame bizarro no qual devemos fazer aquela brincadeira da faca nos espaços entre os dedos. Nesse minigame eu me furei mais vezes que um viciado em drogas injetáveis. Adoraria ter podido contar com a ajuda do universitário Bishop, do Aliens O Resgate...

Se precisar de uma mãozinha é só falar...











A jogabilidade dos carros é meio brusca. Pelo menos até que você se acostume. Depois que pegamos o jeito, fica fácil de perceber que tudo em Rage está no lugar e funciona muito bem (exceto as texturas que não decidem aonde querem estacionar).
Há uma grande variedade de elementos de distração no jogo. Neste ponto eu tiro o chapéu para a Id: ela conseguiu colocar um grande leque de opções na experiência com o seu título de altas expectativas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vai me dizer que essa belezinha não merece uma chance?











É engraçado como mundos pós apocalípticos (quando embalados em uma inebriante atmosfera de abandono e desolação) exercem este enorme fascínio sobre mim.
Rage tem algumas falhas graves que, sob o crivo de mãos mais cuidadosas, impediriam que o título sequer chegasse às prateleiras nas atuais condições em que ele foi lançado.
Então vem a pergunta inevitável:
RAGE VALE A COMPRA? Bem...

Recomendar um jogo como Rage chega a ser um ato de irresponsabilidade, pois fazendo isto eu estaria induzindo os possíveis leitores e compradores a levarem para casa um produto com defeito de fábrica e sem previsão de recall. Mas não consigo e não quero parar de jogar Rage. Levem em consideração meus outros reviews, baseando-se nas suas próprias experiências e decidam por si mesmos. Não é uma questão de tirar o corpo fora ou me livrar da “responsabilidade” de indicar ou não o jogo. É que a atual indústria dos games vem exercitando esta sua nova capacidade de nos magnetizar com aberrações de difícil veredito. Não é a primeira vez que me vejo em um impasse como este. De fato, muitos jogos têm me colocado nesta posição de relevar falhas que há pouco tempo seriam consideradas graves por mim em prol do bem maior e que deveria ser o objetivo de todos que jogam videogame: a diversão.

Confesso que minhas primeiras impressões sobre Rage foram as piores possíveis: falha gráfica inadmissível; paredes invisíveis da morte (linearidade); história cheia de clichês; muretas de 10 cm de altura barrando o progresso (isso é tão 1999).
Eu, sinceramente, imaginava que a criadora do gênero viria com um produto bem mais evoluído que isso.
Mas Rage consegue ser muito competente em características que não se configuram como grandezas aferíveis propriamente ditas. E tudo acaba ficando muito subjetivo e a critério de quem está jogando: você se sente ludibriado, tendo comprado um produto defeituoso que não cumpre nem metade das promessas técnicas que prometeu? Parabéns! Temos um sentimento em comum quando o assunto é Rage. E, se esse for o caso, PASSE BEM LONGE DESTE JOGO.
Mas, se você considerou todos os prós citados por mim no texto acima, aproveite as promoções e compre uma cópia bem baratinha do jogo. Aproveite para SE DIVERTIR E VIVENCIAR TUDO DE BOM QUE O JOGO TEM A OFERECER.

Rage parece ser um produto do desleixo de criadores desajeitados que não têm noção da responsabilidade que carregavam nas costas. Eu consegui ver além disso. E a diversão continua, cheia de fúria e carros armados dos pneus até o capô...

Vai me dizer que você não daria uma chance a  uma belezinha dessas?


Au Revoir!

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