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sábado, 6 de outubro de 2018

ANÁLISE: THE SEXY BRUTALE (PS4)






















Se agosto é uma época do ano na qual tudo pode dar errado, outubro é o mês onde as bruxas estão soltas, vampiros anseiam por jugulares alheias e zumbis se levantam de seu sono inquieto para caçar cérebros. E ainda tem o agravante das eleições, onde monstros não tão divertidos quanto os da ficção tentam de todas as maneiras continuar a sugar o sangue do brasileiro e perpetuar seu reino de terror e destruição. Mas isso é assunto pra outro blog...

Nos games, apesar da abundância de modos zumbi em diversos jogos de tiro, o gênero horror não vem contando com muitos representantes de qualidade nos últimos anos. Apesar de insta fenômenos como Five Nights At Freddy’s, Slender ou Amnesia, eu sinto a falta de bons representantes do gênero survival horror.

Eu, assustado? Imagina. Por quantas horas um ser humano consegue prender o xixi mesmo?

Oba, então The Sexy Brutalle é um jogo de horror com muita brutalidade e cenas de sexo?” Claro que não, troll da internet! Pode ir tirando o cavalinho da chuva de sangue. Longe disso, The Sexy Brutalle foi apenas o mais perto que eu cheguei a encontrar de um jogo de terror pra falar aqui neste mês de outubro, no Mais Um blog de Games. E acho que depois dessa ficou mais que óbvio que eu não fazia ideia de como abrir esse post, não é mesmo? Pra não prolongar mais a encheção de linguiça, fiquem com as minhas impressões do game de uma vez por todas.


HISTÓRIA (8,5)


O relógio bate quinze para as quatro. O estampido de um rifle de caça ecoa pelos cômodos da velha mansão. Às dezenove horas começa o baile.  Enquanto isso, uma vida humana se encerra no balanço de uma corda e o corpo de uma bela cantora é dilacerado por cacos vidro e aço. Às vinte uma e quinze, uma aranha se dedica ao que seria sua última refeição. Às vinte e duas horas o show já havia começado. O preço a se pagar pelo espetáculo? Uma repentina queda de energia e o ceifar das vidas de dois jovens rapazes.

Às vinte duas e meia um vencedor comemora sua vitória brindando com sua mais amarga derrota. O relógio badala vinte e três horas, espalhando uma chuva de sangue e cheiro de carne queimada pra onde quer que se vá. Mas o horário de ouro é mesmo às quatorze e dez, quando um corpo atravessa um vitral e reinicia todo o ciclo que trará de volta à vida aqueles que nunca deveriam ter partido...

A bizarrice rola solta. Vai por mim.

The Sexy Brutalle conta a história de Lafcadio Boone, um aristocrata que acorda em uma mansão onde os convidados parecem estar sendo assassinados pelos empregados do local. Como se não bastasse, cada uma dessas pessoas (inclusive você) usa máscaras irremovíveis que estão relacionadas a esses assassinatos.

Uma misteriosa figura banhada em sangue se ergue do chão pra te alertar de que o dia está se repetindo, sempre começando pelo meio-dia e indo até a meia-noite, quando todo o ciclo de mortes começará mais uma vez, sem previsão de quanto irá terminar. Cabe a você tentar descobrir não só o que está causando esse fenômeno, como impedir que os assassinatos aconteçam. Pra apimentar as coisas, as máscaras usadas por todos na mansão parecem estar possuídas por entidades malignas que te atacam ao menor sinal da sua presença, impedindo que você alerte qualquer pessoa do perigo real que as espreita.

The Sexy Brutalle é o tipo de jogo onde fica impossível falar mais do enredo sem recair no crime dos spoilers. De fato, o jogo sofre daquele problema de ser bem melhor aproveitado quando tudo ainda é novidade pra quem segura o controle, visto que (como é comum a esse tipo de obra) boa parte da motivação de jogar se esvai quando você já desvendou o mistério central da trama.

Se quiser descobrir o que o Lucas fez, vai ter que jogar!

Mas, de forma geral, cabe uma observação acerca do enredo que não se enquadra no campo dos spoilers propriamente ditos: é bem frustrante saber que os personagens que você se esforçou tanto pra salvar vão acabar morrendo de qualquer jeito, muito embora que sua missão de salvá-los tenha sido cumprida. Ainda bem que, depois que você lida com a inevitabilidade dos eventos e compreende seu sistema, fica mais fácil seguir em frente e aproveitar o game da forma como ele foi planejado pra ser jogado (não se apegue muito e siga pra próxima vítima, pois shit happens...).

Há uma boa dose de morbidez no jogo, vá se acostumando.

Esse tópico do post é um sobre o qual eu já sabia que iria pisar em ovos ao escrever, pois The Sexy Brutalle é uma daquelas obras que você ganha mais por entrar de cabeça sabendo o mínimo possível sobre ela. O final do jogo, sem estragar a surpresa de ninguém, é bem mind blowing e vai dar um nó quase indesatável na sua cabeça, cobrando uma das decisões mais difíceis que eu tive que tomar num jogo nos últimos tempos (encerro por aqui ou uso o relógio pra voltar no tempo?).

Ainda em tempo, os conflitos psicológicos do protagonista e a história como um todo me lembraram muito a finada franquia Silent Hill em sua forma de lidar com distorções de realidade e tragédias envolvendo atos questionáveis de pessoas com sérios problemas de relacionamento para lidar com.


GRÁFICOS (8,0) E SOM (9,5)


Quando se fala em visuais, The Sexy Brutalle dá um cavalo de pau e entra na contramão do padrão de jogos indie a que estamos acostumados a ver: ele possui gráficos espetaculares, com personagens surpreendentemente realistas e bem animados, sem abrir mão de belos efeitos de luz e sombra. A escolha do design SD (super deformado) de personagens, por incrível que pareça, não tira a seriedade dos temas abordados no enredo ou o impacto das mortes dos convidados da mansão.

A perspectiva de câmera escolhida aqui foi a de “casinha de bonecas”, onde o jogador enxerga os ambientes meio que de cima, meio que de lado, com zoom out em alguns momentos para facilitar o entendimento do que se passa em cômodos adjacentes da mansão. Para bisbilhotar o que as vítimas (ou seu futuro agressor) estão aprontando, Lafcadio conta com o recurso de espiar pelo buraco da fechadura, entrar em armários e ouvir por trás das portas (ações essas muito bem representadas, com ícones de passos e balões de diálogo para cada contexto que as situações exigem).

Uma linda casinha de bonecas...

Sobre o som, eu poderia começar dizendo que logo na primeira cena do game, onde Lafcadio está inconsciente perto de um relógio, você já percebe que vem algo de promissor pela frente (no tocante a qualidade sonora). Mas isso seria um desserviço ao design de som idealizado para este jogo: LOGO NA TELA PRINCIPAL você se dá conta da qualidade musical que o game tem guardado pra você. Não é exagero dizer que você vai adiar o ato de “PRESS START” só pra ficar curtindo a batida tema principal do cassino.

A certeza que fica é que, quando um estúdio não precisa se preocupar com números de vendas ou contagem de polígonos de um título, sempre sobra mais tempo pra dedicar à qualidade de outros aspectos técnicos de um projeto. A OST aqui é da mais alta qualidade. Não é à toa que vem o disco com as músicas na versão física em blu-ray.

Finalmente. Uma porra. De foto. Que combina. Com o tópico. Som!

Além de puro deleite com sua qualidade, o som em The Sexy Brutalle exerce papel fundamental na experiência do jogador (o que eu acho que sempre devia acontecer com todos os jogos), como na parte da cantora Tequila Belle ou em vários outros momentos (apesar de que nenhum dos diálogos são dublados). E não é só com relação a músicas não: de uma forma geral, parar para ouvir os sons de passos e outros detalhes é fundamental (e enriquecedor) para um melhor aproveitamento de sua experiência de jogo (se meu fone 7.1 não tivesse ido pro beleléu, provavelmente eu recomendaria seu uso nessa parte do texto).


SISTEMA (9,0)


É raro um jogo aqui no blog ganhar nota alta no quesito Sistema por sua originalidade, ao invés de ganhar por uma boa execução. Bem, chegou a hora de mudar um pouco o cardápio, pra variar.

Imagine um episódio de CSI com a limitação cronológica do filme Feitiço do Tempo (se ainda não viu, assista!). Tudo no jogo acontece simultaneamente, não importa quão avançado você se encontre no enredo ou o que os personagens secundários estejam fazendo (é meio perturbador saber que, assim que o jogo começa, ele meio que já está se encaminhando para seus eventos finais... só pra começar tudo outra vez!).

Pra evitar os assassinatos é preciso coletar informações e itens, a fim de enganar o assassino da vez (é sempre um mordomo) ou impedir seu acesso à cena do futuro crime. Muitas vezes você vai perder os itens que conseguiu encontrar no cenário, só restando a frustração (boa) de tentar de novo, desta vez munido de mais conhecimento sobre a situação. Apesar do sistema de reinício de tempo parecer sufocante no começo, The Sexy Brutale foi um dos poucos jogos em que eu joguei com um contador de tempo acima da minha cabeça e isso não foi um problema, muito pelo contrário: a obrigação de ter que recomeçar faz parte da diversão do game!

É preciso ler. Muito.

Pra tentar resumir como funciona The Sexy Brutale, pense da seguinte forma: imagine que o filme Feitiço do Tempo teve um filho com o jogo de tabuleiro Detetive ao som de Imitation of Life, da banda R.E.M. A prole desse casal inusitado seria The Sexy Brutale, uma quimera espaço-temporal que brinca com a sua capacidade de refazer sem repetir, de descobrir algo que já sabia, só que por uma ótica totalmente nova (e holística) que pode fazer toda a diferença.

Quem me conhece sabe que geralmente eu detesto limite de tempo em jogos (morrer afogado com o Sonic vinte mil vezes deixa uma pessoa meio traumatizada, sabe como é...), mas aqui ele (o tempo) é usado de forma inteligente, em favor da mecânica da qual gira em torno. É reconfortante, empolgante, saber que, não importa o que aconteça, erros do passado podem ser corrigidos com um toque no botão de retroceder o relógio a qualquer momento. Até a minha falta de memória deixou de ser um problema jogando esse jogo (errou o caminho? Aperte L2, volte no tempo e seja feliz tentando pela milésima vez!).

Dá pra se esconder, mas não é a temática do jogo.

Mas esteja avisado de que é preciso ter tolerância com backtracking e tentativa-e-erro pra se dar bem com esse game. Sim, há muito backtracking em todo o gameplay, mas o que você esperava de um título com mecânicas de retroceder no tempo? Felizmente, é deliciosamente divertido ver como situações que você presenciou no começo do jogo, quando você não fazia ideia do que estava acontecendo na mansão, se encaixam no contexto geral do enredo.

Por exemplo, depois de horas ouvindo música de jazz no cassino, você finalmente descobre quem era a banda responsável pela melodia. “O que eu faço pra abrir o cofre antes que o assassino entre na sala? E pra que serve aquela cápsula vazia que eu achei no chão”? É bem legal o exercício de ligar os pontos e descobrir como lidar com os problemas que envolvem evitar as mortes dos convidados.

É frustrante quando o tempo acaba e você não descobriu onde usar a corda do relógio...

Uma grata surpresa que eu tive com The Sexy Brutale foi que, acima de tudo, ele é um jogo de investigação. No começo ele é até meio que simples e fácil demais (como na primeira morte, a do rifle de caça). Mas, quando chegar ao caso da sensitiva que se enforca no sino, dúvidas reais e genuínas de como montar as peças do quebra-cabeça que rodeia as mortes vão se apoderar da sua sanidade (peraê: se a chave só aparece DEPOIS que ela morre, como eu vou fazer pra evitar que isso aconteça?).

O jogo salva automático depois de certos eventos e quando você usa a máscara de Reginald nos relógios antigos espalhados pela mansão. Essa mecânica, a dos relógios de checkpoint, funciona muito bem. Com um pouco de atenção à ordem dos eventos, é possível até usá-los em seu próprio benefício, seja pra testemunhar cenas que ajudam na resolução dos enigmas quanto na possibilidade de encurtar distâncias no mapa. E a cada morte evitada, uma máscara com uma nova habilidade é desbloqueada, então aproveite para explorar e descobrir mais detalhes (mesmo de casos que você já solucionou) acerca dos convidados da mansão.

Tem muitos itens, mas a máscara de xeretar conversas sussurradas é o meu favorito.

Uma crítica vai para a máscara da penúltima vítima, um dos arquitetos do lugar: ela, teoricamente, revela detalhes dos ambientes, mas eu sinceramente não percebi mudança nenhuma depois de sua aquisição. Também critico o delay irritante para abrir algumas portas, coisa que só pode ser uma enrolação para disfarçar telas de carregamento.

Em alguns momentos nosso personagem chega ao cúmulo de ficar de costas para uma porta a qual você está com a maior pressa de atravessar, ignorando completamente o comando que você acabou de inserir. Isso vai te obrigar a apertar o botão xis mais vezes do que devia ser necessário, pra ter certeza que a ação será realizada.


O MORDOMO É O CULPADO...


“A indústria de games não inova.  Só saem as mesmas continuações de velhas e rentáveis franquias. O mercado de games está saturado criativamente.” Com certeza você já deve ter ouvido esse discurso em mais de um lugar na internet inclusive, talvez, até aqui no meu blog. Mas você já parou pra pensar quantas chances você deu, neste ano, a jogos com propostas diferentes? Jogos onde o foco não é deixar o jogador estupefato com gráficos ou contagem de polígonos na tela?

Então, The Sexy Brutale é o tipo de jogo que me deixa feliz em saber que existem empresas com coragem para apostar em conceitos diferentes, mesmo que estejam fadados a não encabeçar listas de mais vendidos do ano.

NOTA FINAL: 8,8

É um jogo maravilhoso e surpreendente, um sopro de criatividade a quem procura experiências diferenciadas nos games. Nunca pega o jogador pela mão, sempre atiçando sua curiosidade do que precisa fazer pra prosseguir (cada detalhe novo descoberto sobre seu próximo alvo vai ser comemorado com aquele ar de “huuumm, então era isso que ele estava fazendo às X horas no local Y...”).

"Hum, será que eu já passei por aqui antes?"

O game consegue arranjar um casamento perfeito entre interface gráfica e sonora (aliadas a elementos Metroidvania de jogabilidade) que poucas vezes eu vi trabalhar tão bem a favor de uma proposta de jogo (o que é intencionado pelos criadores funciona, simples assim). 

Há um agradável tom de “”Resident Evil” clássico em sua exploração, um charme em desbloquear novas áreas ou a intrigante curiosidade de saber o que há por trás daquela porta trancada (mesmo com a possibilidade de espiar pelo buraco da fechadura) que vai segurando o jogador até o momento da aterradora verdade sobre o destino dos convidados do cassino The Sexy Brutale.

Paciência sem abusar da boa vontade do jogador, capacidade de observação, atenção aos detalhes: The Sexy Brutale é um daqueles jogos que não se joga às pressas, sem parar pra raciocinar ou tentar juntar os pontos do que o sistema do game quer que você saiba em determinado momento da aventura.

Sabe aquele tipo de jogo que dá vontade de jogar de novo,
pra ver como tudo se encaixa?

Toda sua experiência é regada a um senso de urgência que, em outros jogos, seria motivo de rejeição imediata da minha parte. Aqui, como os eventos são bem planejados (e os personagens cabeçudinhos são super carismáticos), o resultado final é uma corrida contra o relógio (literalmente) pra fazer o melhor possível dentro do menor tempo disponível.

Como já deu pra perceber que minha criatividade pra elogios se esgota com uma velocidade constrangedora, vou encerrar o post por aqui e recostar a cabeça no travesseiro com tranquilidade esta noite, pois tenho a certeza de que cumpri a missão (do Mais Um Blog de Games) de indicar títulos desconhecidos que podem significar uma ótima experiência de jogo aos de coração mais aberto a propostas menos main stream da indústria.

Au Revoir.

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