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sexta-feira, 5 de junho de 2015

ÓDIO GENOCIDA

























Um passeio pelas randômicas playlists do Youtube foi o bastante pra conhecer Hatred, um jogo que chamará a sua atenção logo de cara pela sua premissa nada sutil: jogamos com um cidadão revoltado contra deus e o mundo que decide resolver seus problemas com o dedo no gatilho, ao invés de usar os meios que todas as outras pessoas utilizam para desestressar. Tudo isso em um estilo que deixaria o personagem de Michael Douglas, no filme Um dia de fúria, se sentindo o maior incompetente da história dos serial killers circunstanciais.





Essa espécie de protagonista kamikaze quer se vingar dos problemas do mundo levando o máximo de pessoas com ele antes de ser abatido. Sinceramente, eu não pretendo jogar pra conhecer mais a fundo, até porque você não precisa tomar um caldeirão inteiro de uma sopa pra saber que gosto ela tem (uma colher já basta), mas fico me perguntado de que forma esse ponto de vista do personagem é justificado (se houvesse uma justificativa para tais atos). Será que o antagonista é vitimizado pela teatrização de seus dramas pessoais? Ou será que o enredo simplesmente chuta o balde (sem dar a mínima para explicações) e já coloca uma metralhadora na mão do jogador, sem mais nem menos?





A Destructive Creations, um estúdio polaco com uma equipe modesta de funcionários, parece já ter entrado com o pé esquerdo na indústria dos jogos, e propositalmente. Hatred é o primeiro jogo do estúdio, que em seu site oficial responde às críticas da mídia especializada com algumas desculpas esfarrapadas que simplesmente não conseguem disfarçar a estratégia escolhida para conquistar um pouco de atenção . Pra você não achar que eu estou inventado isso, aqui vai um trecho da nota de esclarecimento no site. A tradução é cortesia da casa:

“Hatred é um shooter de perspectiva isométrica com uma atmosfera perturbadora de assassinatos em massa, onde o jogador assume o papel de um antagonista de sangue frio, repleto de ÓDIO PELA HUMANIDADE. É um horror, mas VOCÊ é o vilão. Vagueie pelas redondezas de Nova Iorque à procura de suas vítimas em sete níveis de exploração livre. ‘Lute’ contra as forças da lei e embarque em uma viagem rumo à mente de puro ódio do antagonista do jogo. Colete equipamento de ‘escudos humanos mortos’ para trazer o armagedom à sociedade. Destrua tudo pela frente em sua trajetória de caçada e dê o troco quando for provocado...

... só não tente isso em casa e não leve tão a sério. É apenas um game”.





Ao que parece a Destructive Creations tentou se antecipar ao furdunço que um jogo como Hatred causaria e colocou um tipo de explicação das razões por trás de um jogo como esses. Entre os motivos, a DC (diante de uma terrível e alarmante “onda de jogos com preocupação artística ou politicamente corretos”, sarcasmo OFF) cita a vontade de criar um jogo que possibilite um puro “prazer gamer” aos jogadores...

Se com essa tentativa de “fugir das tendências”, a DC se refere a games sem muito enredo e focados basicamente no gameplay descompromissado, sinto avisar que muitos dos jogos que joguei nesses últimos anos se enquadram nessa descrição (como Flower, Dying Light, Cut the Rope, Limbo) sem precisarem recorrer a apologia ao genocídio gratuito ou misantropia.

A afirmação que surge é mais que natural: a polêmica de Hatred já não é mais novidade desde Mortal Kombat, Doom, Carmaggedon e vários outros em uma (não tão) longa lista de jogos banidos ou perseguidos pela extrema violência que mostravam. E, dados os seus visuais e perspectiva escolhida (isométrica ao invés de visão em primeira pessoa), Hatred perde feio para outros jogos bem mais violentos que ele.





Como exemplo, posso citar o recente Mortal Kombat X, que dispensa apresentações ao exibir Fatalities cada vez mais “precisos em demonstrar ângulos variados da anatomia interna humana”; o God of War 3, um jogo que nos deixava no controle de um protagonista que literalmente arrancava a cabeça de outro ser vivo do pescoço (com uma riqueza de detalhes digna de deixar um anatomista salivando); os jogos da série GTA, que não perdem tempo em mostrar a ótica violenta de quem nasceu no berço errado do conto de fadas; e por que não Man Hunt, um jogo que incentivava o jogador a matar seus adversários da forma mais cruel e “criativa” que as mecânicas de jogo permitissem. Mas há um abismo que separa as obras citadas de um título pitoresco como Hatred: a motivação do personagem principal.



Acredite: o que Kratos faz antes do ato em si é ainda mais chocante


A violência de Mortal Kombat pode ser perturbadora à luz dos avançados gráficos de hoje, mas na época do lançamento do jogo original causava mais risos que náuseas. E a série sempre deixou claras as motivações dos participantes do torneio. Kratos, assim como o protagonista de Hatred, passa longe de ser um bom moço, mas seu motivo para massacrar um deus após o outro era a clara e linear necessidade de vingança. E no final da saga, o ato derradeiro de Kratos pode até ser classificado como algo altruísta. GTA não obriga o jogador a matar inocentes. A violência da série geralmente se vê restrita ao universo do submundo criminoso, dando liberdade ao jogador de massacrar civis apenas por uma mera questão de possibilidades de motor gráfico. Em Man Hunt você é obrigado a participar de uma espécie de reality show se quiser prosseguir com vida. Nada além da pura sobrevivência.



É mais engraçado que perturbador


Em Hatred impera uma mensagem nada subliminar de que talvez a humanidade seja algo tão execrável que não resta outra alternativa a não ser apelar à forma mais extrema de censura conhecida pelo homem, o assassinato. Qual a real intenção de uma desenvolvedora que resolve se dedicar a “criações destrutivas” que tentam botar pra fora um dos aspectos mais repreensíveis do ser humano?

Para conquistar seus quinze minutos de fama, a DC se arrisca a travestir sua primeira cria com um subgênero obscuro, o tal do “jogo de genocídio”. E a imagem da equipe de desenvolvedores, que consta no site, parece contribuir muito em alcançar o status almejado pelos jovens responsáveis pelo projeto:


Só faltou o turista ajoelhado no chão, com uma faca no pescoço...


Seja sincero: se não fosse pelo logo do game estampado nas camisas (e a ausência de máscaras), a foto acima poderia ser facilmente confundida com uma imagem de uma facção do Hamas ou algo que o valha. Eu, como jogador consciente e experiente de games não consigo obrigar meu cérebro a dissociar a imagem da impressão que ela carrega; imagine um pai cristão fervoroso que entrou no site já com a certeza de que enviados de Satã estão obrigando seu filho a matar pessoas em um jogo advindo das trevas? O game é classificado como "Adults Only", mas é lógico que ele vai ser jogado por todas as faixas etárias possíveis e imagináveis.

Hatred tenta tornar corriqueira uma prática que abre um precedente que me incomoda demais. Se a intolerância contra um grupo é assustadora, o que dizer da intolerância contra a sua própria espécie como um todo? Não estou querendo dizer com isso que o jogo devia ser censurado, mas esse tipo de ação gera polêmica barata e deixa, aos poucos, o consumidor insensível à ideia de que matar pra resolver talvez não seja tãããão abominável assim.
É chato ter que bancar o advogado do diabo (o "diabo", nesse caso, são os puristas que acusam o jogo), mas fica difícil partir em defesa de um jogo com uma premissa como essa.



Trevor: nem te conheço e já sou seu fã


Logo após seu lançamento, Hatred foi removido da Steam, em um episódio que culminou com um pedido de desculpas do criador da loja virtual e o retorno do jogo ao site. A notícia na íntegra, do site Bonus Stage, pode ser conferida aqui.

E a polêmica vem se mostrando um excelente garoto-propaganda, já que o game bateu recordes de download da versão digital, passando na frente de arrasa-quarteirões já consagrados na indústria, como GTA 5 e (pasmem!) The Witcher 3.

Aos jogadores conscientes, que sabem que um jogo como esse não precisa de um patch que adicione criancinhas à lista de NPCs assassináveis pra chamar ainda mais atenção, fica o aviso: prepare os tapa-ouvidos de papel higiênico que certamente as emissoras de TV brasileiras vão se manifestar, assim que a falta de notícias se abater e uma chacina cometida por um jogador de games se realizar.



Boa pergunta...


Mas será que o simples ato de falar de um jogo como Hatred é propagandear aquilo que deveria permanecer inaudito? Ou é algo que serve de alerta aos games menos politizados? Fica a pergunta no ar, mas meu recado pessoal é este: não acho nem um pouco saudável consumir esse tipo de produto, pois existem vários e melhores jogos no mercado dispostos a sanar a sanha assassina (digital) dos jogadores, e sem um pano de fundo tão funesto quanto esse.

 A certeza que obras como essa me dão é que, se a violência precisa ser mostrada em um jogo, com fins narrativos, Hatred deixa a certeza que está cumprindo a tarefa com o pano de fundo errado.

Au Revoir...

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